Agricultura irrigada: uma conversa sobre o atual cenário e seus desafios.

Atualizado: Jul 21

Entrevista com Ana Valentini - Secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais.


Ana Valentini é secretária de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Foi uma das fundadoras da Irriganor e sua primeira presidente. Engenheira florestal e produtora rural, ela fala ao IrrigaNews sobre os desafios da agricultura irrigada no atual cenário.


IrrigaNews: A senhora foi uma das fundadoras da Irriganor, qual é a importância dela para o Noroeste Mineiro? Ana Valentini: A Associação começou no meio de uma crise hídrica de 2015 para 2016. Foi quando percebemos a necessidade de organizar os produtores, tanto para compartilhar a gestão dos recursos, organizar a gestão dentro das bacias, bem como para organizar as demandas do setor e as mudanças necessárias nas legislações ambientais estadual e federal, normativas e deliberações da Secretaria do Meio Ambiente. Tudo isso para que o produtor pudesse ter mais agilidade no seu dia a dia na propriedade rural. A quantidade de condicionantes e de normas são muitas e existe uma distância grande entre aqueles que criam as normas e leis em relação a quem está no campo. Logo, existe um impacto regulatório, ou seja: a norma é criada desconsiderando quem está ali sofrendo para implantar tal exigência em termos de controle ambiental.


IrrigaNews: Qual é a importância dela para o Noroeste Mineiro? Ana Valentini: Desde sua fundação a Associação se faz necessária pelos motivos já citados e também para buscar alternativas para gestão dos recursos hídricos. A agricultura irrigada é de grande importância para a produção de alimentos na região, para gerar emprego e renda, e a água passou a ser um problema devido à crise hídrica que me fez questionar o que faríamos frente ao problema. Na bacia de Bonfinópolis em que eu estava inserida, só havia nove irrigantes, o que inviabilizava a criação de uma associação. Logo, houve a junção de ideias para união das pequenas bacias da região e seus produtores. Assim eles foram convidados para uma reunião, foram 32 produtores para um grande SIM inicial para a fundação e hoje temos uma associação que cresceu muito rápido.


IrrigaNews:Como foi o processo de estar à frente da Irriganor? Os desafios vividos nesta experiência lhe auxiliam no cargo de grande responsabilidade assumido hoje?


Ana Valentini: Um dos primeiros desafios foi estruturar o papel da associação e quais seus objetivos. Em 2018, para que pudéssemos chamar a atenção das pessoas, estruturamos rapidamente um evento com convite somente virtual com o seguinte tema: “Crise hídrica, caminhos e soluções”, no qual convidamos produtores para discutir e compreender a realidade da falta de água e qual era o caminho a ser tomado. O evento foi um sucesso, compareceram 280 pessoas de 14 municípios da região. Um evento que foi executado de maneira simples. Convidamos para este momento, a IRRIGO - Associação de Irrigantes do Estado de Goiás, a ASPIPP - Associação de Irrigantes do Sudoeste Paulista; e a AIBA - Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia. Eles falaram e, ao fim, os produtores se envolveram na proposta, porque viram a necessidade de fazer mais do que já tinha sido feito até o momento, ou seja, que estávamos no início da caminhada para melhorar a gestão dos recursos hídricos devido aos exemplos que foram apresentados. Logo, para a associação sair do papel e trabalhar por seu objetivo, foi preciso o sim de várias pessoas, eu jamais teria conseguido sozinha. Creio que a Rowena Petroll (atual presidente da Irriganor) continuará este trabalho agregando outras bacias e associações do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro, bem como o Norte de Minas; para que a associação se torne uma associação do Estado de Minas Gerais. Sabemos que não é fácil, mas é necessário avançar neste sentido.

Espero que isso traga um pouco de união para o setor, pois quanto maior a associação, maior a representatividade. Quando os produtores se organizam e mostram para a sociedade que são capazes de fazer um bom trabalho em prol da comunidade e, neste caso, em prol da gestão do uso racional da água e do solo, isso ajuda muito. O trabalho realizado para que a Irriganor acontecesse, creio eu, foi um determinante para o cargo hoje de secretária de Agricultura do atual governo. Indicada por um associado, eu concorri à vaga em forma de processo seletivo e o governador Romeu Zema, reconhecendo que eu tinha perfil para o cargo, me convidou. Na verdade, acho mesmo que foi uma ousadia dele (governador), que andou tanto pelo estado e ouviu todas as dores do produtor rural, optou por levar uma produtora para tentar sanar estas demandas. No entanto, é difícil mudar normas e leis, é uma das principais queixas, uma vez que estão fortemente relacionadas ao meio ambiente.


IrrigaNews: Sobre a agricultura irrigada, trace um panorama dela em nosso país hoje e fale um pouco sobre a sua importância e desafios. Ana Valentini: Respondo esta pergunta com uma declaração de Alysson Paulinelli, uma certa vez em que se reuniu com o presidente da República e disse que o principal caminho para aumentar a oferta de alimentos como o mundo espera do Brasil é a agricultura irrigada. Por isso, o presidente da República solicitou um estudo ao Ministério de Ciências e Tecnologia sobre o que é preciso expandir a irrigação no país. No entanto, vejo que a maior dificuldade que a nossa região tem hoje é a de conseguir licenciamento para construir barragens, pois temos um volume bom de chuvas concentrados em seis meses do ano. Logo é necessário ter um reservatório para guardar a água de chuva quando não chove nada, mas os ambientalistas não pensam assim, acreditam que tal ato degrada o meio ambiente. A nossa maior dificuldade é esta e avançamos pouco neste sentido. Uma burocracia grande dificulta a obtenção do licenciamento ambiental e deixa o produtor rural sujeito a multas. O desafio de simplificar ou alterar uma norma é este, as pessoas acharem que ao fazer ou lutar por isso é para degradar o meio ambiente. O que queremos é reduzir a burocracia para o licenciamento ambiental.


IrrigaNews: Qual a grande questão da sustentabilidade para o agro hoje? Ana Valentini: O que precisamos pensar em termos de sustentabilidade ambiental é a aptidão. O Cerrado é uma região que tem a maior aptidão para produção de alimentos no Brasil pelo clima, solo, relevo, por isso é preciso analisar a aptidão e o potencial de cada região. O Brasil tem potencial para produzir alimentos para o mundo de maneira sustentável. Na maioria das culturas, colhe-se de uma safra e meia a duas safras, o que não se observa em outros países. O Brasil já produz um volume de alimentos cinco vezes maior do que o necessário para a sua população, usando somente 9% de sua área, com sustentabilidade e segurança alimentar.


IrrigaNews: Vivemos em um momento de grande tensão, devido à pandemia, no entanto, o agro brasileiro segue suas atividades. Para o agro frente à pandemia, quais são as perspectivas ou aconselhamentos? Ana Valentini: O que está salvando o país é o agro e com ele nosso país não vai quebrar. No entanto, vemos grupos que ainda enxergam o agro como um vilão. É importante pensar na importância do agro para o nosso país, sobretudo em tempos de pandemia. Não só pelo volume produzido, mas, sobretudo, pela produção que traz segurança alimentar. Imagina se fôssemos um país como o da década de 70 que importava alimentos? Como faríamos? Fica o questionamento, pois esta é a dificuldade que muitos países irão enfrentar. IrrigaNews: Para o agro pós-pandemia, qual será o cenário, há alguma oportunidade que pode/deve ser apresentada? Ana Valentini: Gostaria de saber quando será o fim da pandemia, pois as dúvidas são muito grandes e precisamos pensar na questão de curto prazo, que é o avanço do vírus pelo interior enquanto temos a colheita de café acontecendo no estado todo, sobre a qual seguimos atentos. Os frigoríficos nos preocupam bastante, devido aos fatos que estão acontecendo no mundo. Estamos movendo esforços e conversando com o setor. O que me preocupa ainda é o dia a dia deste cenário, como nos proteger, se estamos atentos a todas as questões. O pós-pandemia acontecerá somente quando a vacina existir. O que nos preocupa é o avanço da doença, mas já temos algumas sinalizações em relação ao cenário futuro. Acredito que as pessoas estarão mais preocupadas com a segurança alimentar e com a qualidade dos produtos que consomem; em saber se os produtos foram devidamente inspecionados; onde e em quais condições eles foram produzidos. Assim, acredito que o interesse pela rastreabilidade e certificação dos alimentos irá aumentar no pós-pandemia.

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